Crônica: A Mágica do Rádio- Érico Veríssimo- J. O Globo- 29/07/2007

Caros amigos,

li a crônica de Érico Veríssimo, do Jornal O Globo, datado em 29 de julho de 2007, através do blog de meu ex professor e Mestre Ruy Jobim.

Obrigada pela atenção e uma boa leitura a todos.
Com carinho,

Isabela Guedes.
blogdoradiocarioca@yahoo.com.br
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A Mágica do Rádio- Érico Veríssimo:


Não posso dizer que me decepcionei na primeira vez que vi um jogo de futebol no campo. Naquele tempo não havia arame ou fosso protegendo o campo da torcida, podia-se ver o jogo debruçado sobre uma cerca baixa de madeira, na beira do gramado, só se arriscando a levar uma bolada ou ser atropelado por um jogador sem freios. Sentia-se o cheiro da grama, ouvia-se o xingamento dos adversários – era outro universo. Mas estranhei a ausência do locutor. Descobri que futebol apenas visto era muito diferente de futebol “irradiado”. Os locutores de rádio nos acostumavam com uma narrativa dramática, mesmo que nada de muito emocionante estivesse acontecendo em campo. Pelo rádio os ataques do nosso time eram sempre cargas épicas contra a defesa inimiga, e os gols do nosso time não eram apenas bolas na rede, eram bolas na rede acompanhadas por um grito triunfal que repetíamos – “Gooooooool!!!” – com entusiasmo feroz. No campo, naquela primeira vez, senti falta do drama ininterrupto que o locutor fornecia. O futebol ao vivo, paradoxalmente, era mais incompleto do que o futebol narrado. A mágica do rádio era esse outro universo, feito só com vozes. O rádio não era som sem imagem, uma realidade pela metade. Era som criando imagens, uma realidade diferente. Isso não valia apenas para o futebol. O “rádio-teatro” era mais realista que qualquer novela de TV porque quem fornecia a cenografia, a paisagem e o ambiente era o próprio ouvinte, na sua cabeça – e com recursos ilimitados. O próprio noticiário do rádio tinha uma autoridade que a TV nunca consegui reproduzir, talvez porque uma voz firme concentrasse mais a atenção do que a visão de um locutor emitindo, e ainda por cima maquiado. Claro que não deixei de ir ao campo para ficar em casa ouvindo a narração, imaginando jogos sensacionais em vez de vendo jogos nem sempre tão animados. Mas só com advento do rádio transistor, que tornou possível estarmos em dois universos simultaneamente – o do jogo contado e o do jogo presenciado – é que senti que minha experiência do futebol estava completa. Eu tinha o futebol de fato, e o futebol de vozes. O mágico. Mas isso foi há muito tempo. Hoje sou um torcedor relapso, reduzindo as reminiscências nostálgicas. E pay-per-view.


Comentários

Unknown disse…
Isabela!
Querida!
Vim fazer uma visita e adorei o seu site!
Parabéns!
Com a sua inteligência e garra, você vai longe!
Torço por você e sentirei saudades quando o noso curso de locução acabar!
Um beijo da sua colega,
Flávia Abranches
Anônimo disse…
Essa crônica, infelizmente, não pode ser do Érico, pois ele morreu em 1975. Acho que ela deve ser de seu filho, Luis Fernando Verissimo!
Anônimo disse…
muito bom...
Você Mesmo disse…
Exatamente.

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2007/07/29/a-magica-do-radio-67450.asp

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